A GEOGRAFIA DO CICLO HIDROSSOCIAL: UMA ABORDAGEM CRÍTICA
Na vanguarda do conhecimento geográfico, o paradigma de exclusão entre homem e natureza vem sendo superado por uma visão integradora, holista. Sob essa ótica, as abordagens de usos – e conseqüentemente gestão – da água foram interpretadas ao longo do século XX pela construção teórica de um ciclo hidrológico, caracterizado por variáveis quantitativas que reconstroem, em tese, o movimento da água nas diversas escalas espaciais de análise – da bacia hidrográfica ao globo. Porém, a inserção do homem apenas como mais um parâmetro quantitativo desse modelo, demonstra-se cada vez mais incapaz de abarcar a complexidade dos processos. Tal limitação aponta para a necessidade de um novo olhar sobre a água, interpretando-a não apenas como um elemento do quadro físico, tampouco um recurso – econômico – hídrico.
O Ciclo Hidrossocial apreende os caminhos da água de uma forma completamente distinta daquele abordado pelas visões tradicionais. Um exemplo clássico foi o apresentado pelo professor Erik Swyngedouw, que acompanha, passo-a-passo, o movimento de uma gota de água que é engarrafada para ser vendida como mercadoria. A partir da captação da água em um manancial, ela passa por adutoras até uma estação de tratamento, depois é engarrafada e transportada por quilômetros até chegar ao centro consumidor. Após seu uso, parte dessa água é transpirada direcionando-se à atmosfera, outra parte segue para o sistema de esgotamento sanitário que, em algum momento, atinge novamente a drenagem superficial.
Esse exemplo demonstra a complexidade do Ciclo Hidrossocial. Sob ação humana, a água captada em um determinado local, rompe o ciclo hidrológico de sua bacia de origem, entra em novo ciclo de movimentação – hidrossocial – para ser incorporada em outra bacia, englobando um novo ciclo hidrológico espacialmente desconectado do primeiro. Transposições de bacias hidrográficas, nesse contexto, são comuns e as modificações qualitativas e/ou quantitativas na água de determinada unidade espacial ocorrem a todo tempo.
Contudo, o desenvolvimento do capitalismo em suas diversas escalas aprofunda as desigualdades sociais, de modo que os conceitos de disponibilidade, acesso e escassez hídrica passam a ter conotações sociais. Tem-se, então, uma estratificação das oportunidades de utilização dos recursos hídricos em função da renda, evidenciando mais uma limitação do ciclo hidrológico e complexificando ainda mais o Ciclo Hidrossocial.
Desta forma, a dinâmica dos processos mantenedores do ciclo hidrológico é enormemente modificada pela ação antrópica. Ao utilizar a água em suas atividades produtivas, a sociedade altera as condições naturais de movimentação da água, recriando o ciclo hidrológico no ciclo hidrossocial, conforme afirma o professor José Galizia Tundisi. Para a geografia, emerge a necessidade de reavaliar o ciclo hidrológico por meio da inserção de variáveis humanas – uso, manejo, gestão, saúde, entre outras. Na opinião de Swyndedouw, a circulação da água se processa em um ciclo hidrossocial, em que sociedade e natureza se transformam dialeticamente. A população, por sua vez, é estratificada a partir do momento em que a água passa a ser um recurso e as oportunidades de acesso passam a ser desiguais.
Considerar que o ciclo hidrossocial modifica-se de em função das classes sociais é imprescindível. Em meio urbano, o saneamento básico é a intercessão mais direta entre homem e água. Os bairros mais pobres são, consequentemente, os que possuem o maior déficit desses serviços. Logo, sua população é a mais vulnerável a doenças com causas diretas ou indiretas relacionadas à água.
Para que o gerenciamento dos recursos hídricos vislumbre a possibilidade de abranger os ciclos hidrológicos e hidrossocial concomitantemente, deve-se compreender o Ciclo Hidrossocial, abarcando a gestão da água de forma mais integradora: saneamento básico, proteção da vegetação, efluentes industriais, etc.
O intuito maior deste artigo é o de apresentar essa temática pouco conhecida e levantar algumas indagações sobre o Ciclo Hidrossocial nos estudos geográficos. Sabendo que no Ciclo Hidrossocial estão inseridos os processos naturais, como e por que os diferentes contextos fisiográficos influenciam na sua dinâmica? Estaria a disponibilidade hídrica natural suprimida pela ação do homem no meio técnico-científico-informacional? Por outro lado, como e por que os diferentes contextos sociais influenciam o Ciclo Hidrossocial? A segregação sócio-espacial por si só é capaz de responder a tal questionamento?
Sabe-se que cada contexto físico, social, histórico, econômico, enfim, geográfico, configura um Ciclo Hidrossocial diferente. Segundo o professor Milton Santos, a metrópole é a máxima expressão da acumulação de capital – espacial e social – e, portanto, é diversa sua relação com a água. Sendo assim, é possível explicar como se desenvolvem os processos do Ciclo Hidrossocial de uma metrópole? As alterações qualitativas e quantitativas nos processos hidrológicos são passíveis de espacialização? As possibilidades e impossibilidades criadas pela lógica do Ciclo Hidrossocial podem ser elucidadas nesse contexto?
Desse modo, abrem-se as portas de uma nova abordagem da água na geografia. Metodologicamente, é necessário desenvolver procedimentos que permitam abarcar a complexidade do Ciclo Hidrossocial, o que só será possível quando mais geógrafos enveredarem-se por esse novo olhar. Enfim, o século XXI inicia-se com uma nova proposta teórico-conceitual em que água e homem são abordados em conjunto, constituindo uma mesma esfera: o Ciclo Hidrossocial.
REFERÊNCIAS
SWYNGEDOUW, E. "Modernity and Hybridity: Nature, Regeneracionism, and the Production of the Spanish Waterscape, 1890-1930", Annals of the Association of American Geographers, 89(3), pp. 443-465. 1999.
SWYNGEDOUW, E. Social Power and the Urbanization of Water: Flows of Power. Oxford: University Press, 2004.
TUNDISI, José Galizia. Ciclo hidrológico e gerenciamento integrado. Ciência e Cultura, , v.55, n.4, p.31-33. Oct./Dec. 2003.
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Comentários
Impacto do ciclo hidrossocial
Há algum estudo que comprove de fato o impacto do transporte de água de uma bacia a outra que está desconectada da primeira? Exemplo, a doação de milhões de litros de água mineral para um país em guerra ou atingido por uma catástrofe ou ainda a exportação de milhões de litros de água mineral francesa? Quando esse montante de água deixa de ser insignificante e passa a impactar no sistema?
Muito interessante o artigo. Me fez pensar nessas coisas que nunca pensei.
Parabéns
Algumas referências a mais
Olá Alberto, obrigado pelo comentário. Há sim, alguns textos. Não tenho referências de artigos que quantificaram isso (o que seria bastante interessante), mas tenho aguns outros que abordam o tema de forma mais descritiva ou conceitual. Seguem algumas referências:
Sandra Rodrigues Braga. ÁGUA, UMA QUESTÃO PARA A GEOPOLÍTICA:REFLEXÕES SOBRE A HIDROGEOPOLÍTICA NA PANAMÉRICA. Revista Estudos Amazônidas: Fronteiras e Territórios, Vol. 1, No 01 (2009).
YAHN, A.G. Agua x populacao: um balanco mundial e regional. In: Seminario Agua: estamos todos no mesmo barco, out. 1999,
Bichara Khader. Geopolítica del agua en el mediterráneo.
Luciana Ziglio. Geografia Política da Água. Ambient. soc. vol.11 no.2 Campinas 2008.
GODOY e LIMA. ÁGUA VIRTUAL: MECANISMO DE APROFUNDAMENTO DAS RELAÇÕES COMERCIAIS DESIGUAIS.
Daniel Forsin Buss; Darcílio Fernandes Baptista; Jorge Luiz Nessimian. Bases conceituais para a aplicação de biomonitoramento em programas de avaliação da qualidade da água de rios. Cad. Saúde Pública vol.19 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003.